A Kombi e a morte pelo trabalho
Numa sexta-feira qualquer, fui buscar minha Kombi verde e branca no mecânico. Queria transformá-la em elétrica. Ficou quase dois anos nesse projeto. Depois de dois anos de frustrações, desisti. Paciência tem limite.
Chovia no caminho de volta. O barulho do motor a combustão, ainda que seja a fonte da minha frustração, tem sua graça. Quem já andou de Kombi sabe da memória afetiva que traz esse barulhinho dela. Lembra a alegria do primário ou a viagem com um tio maluco. Cada um com sua memória da Kombi...
Voltando à chuva, o trajeto estava hostil. Já anoitecia e a Kombi, apesar do seu bom estado, não luta de igual pra igual no trânsito selvagem das cidades. Imperavam as indelicadezas dos motoristas em seus modernos possantes, fruto da visível impaciência com minha direção cautelosa. Tomei até buzinada.
Isso me remeteu às minhas idas diárias ao trabalho. Passo por grandes avenidas, povoadas de criaturas que também estão indo para trabalhar. Salvo as que estão atrasadas, o que chutaria não ser a maioria, sempre me pergunto o motivo de tanta pressa. O trabalho dessas pessoas deve ser sensacional para valer os riscos que elas correm no trânsito para chegar poucos minutos antes, se tanto, na firma.
A insanidade também me espanta em quem caminha. Haja propósito no trabalho para valer a pena a pessoa invadir correndo a faixa de pedestres quando o sinal para ela está vermelho. Ela encara ônibus e motociclistas ensandecidos para chegar segundos adiantados no seu posto de trabalho. Deve ter a melhor profissão do mundo para arriscar a própria Vida ao atravessar uma avenida.
Não me entendam mal, eu gosto do que faço. Ainda assim, estranho essa pressa coletiva arriscar a Vida no trânsito ou nas calçadas para chegar ao trabalho. Acho que todo mundo deveria dirigir uma Kombi para chegar na labuta. O embalo daquele barulho do motor e boas memórias talvez aplaquem um pouco essa pressa coletiva, que mais parece levar as pessoas do nada ao lugar nenhum.

