A Mentira
Independente do tamanho da sua perna, a mentira no mundo corporativo não é recomendável. Por motivos óbvios, mentiras graves não devem nem ser cogitadas. Viram fraudes, demissões por justa causa, processos dos mais diversos, clientes revoltados. Enfim, concordamos que mentiras empresariais são bastante problemáticas. Ainda no âmbito das empresas, estamos nos relacionando o tempo todo com colegas. E aí, ainda que no ambiente profissional, estamos falando de gente.
A verdade crua também é cruel em muitos casos. Vitória era a rainha das grandes verdades. Se orgulhava de não deixar passar nada. Sequer fazia questão de disfarçar uma cara de desgosto, dar um sorriso amarelo. Não disfarçava nem coisas bobas e dizia frases do tipo: “odiei o restaurante que você indicou”. Até algumas verdades cruéis, como dizer ao estagiário que ele não tinha condições de ser efetivado e que deveria buscar empregos mais fáceis. Ela sempre afirmava que as pessoas mereciam a verdade e tinha como propósito sempre dizê-la, custe o que custar.
Amon era sua antítese. Ele acreditava que pequenas mentiras são a base da nossa sociedade. E, nas empresas, não poderia ser diferente. Ora, um “como esta camisa ficou linda em você”, “que belo corte de cabelo”, “em cinco minutos estou de volta”, “vamos marcar um almoço”... Aquelas pequenas inverdades que suavizam nosso dia a dia. Ele as usava com desenvoltura em processos corporativos: por exemplo, naquela reunião que previa ser o caos, mas dizia a um colega o famoso “fica tranquilo”. Ou, talvez um pouco mais grave, aquele indicador em queda que ele não tinha coragem de dizer às pessoas que iria dar problema.
No caso de Vitória, o problema foi aumentando quando ela foi promovida e passou a dar feedback para a equipe. Ficou famosa por, baseada em fatos e verdades, acabar com a autoestima empresarial de todos que passavam por seu caminho. Certa feita, vimos a Cidinha da recepção em prantos, repetindo algo como estar numa relação abusiva e que não queria voltar para casa, para o marido. Tudo por conta da Vitória, que inclusive recomendou que Cidinha saísse dali direto para a Delegacia da Mulher e contratasse um advogado. Ela acabou passando no RH e pedindo demissão, tamanha foi a vergonha que sentiu.

