A reunião e o Paladino
A reunião e o Paladino
Não há nada mais longo que uma reunião de uma hora. Aquele clichê do “essa reunião poderia ter sido um e-mail” é dos meus favoritos nas corporações. Gostaria também de achar a iluminada alma que cravou que todos os presentes na reunião devem falar. Por quê, meu Deus? O silêncio pode somar bastante para a sanidade dos participantes.
Trabalhei com Paladino, uma pessoa fantástica, pois era Vice-Presidente e tinha horror a reuniões. Inclusive era mal compreendido por isso, pois as pessoas achavam que ele era rude. Paladino era como o Sr. Saraiva, aquele personagem da Zorra Total (sim, continuo com minhas referências antigas, desculpem). Uma palavra mal colocada na reunião, um argumento sobrando e Paladino era implacável.
As más línguas diziam ser pela idade dele a impaciência. Puro etarismo, pois qualquer pessoa decente na posição dele faria o mesmo. As reuniões deveriam ser encaradas pelo que são: um desfile de egos. Essa frase não é minha; foi proferida por Paladino na abertura de um planejamento estratégico. Todos aqueles que adoravam falar abobrinha foram contidos logo na abertura.
Certa vez, um estagiário apareceu no alto de sua inocência e disse para Paladino que empresas em terras estrangeiras tomavam como boa prática reuniões em pé, leitura obrigatória nos primeiros minutos da reunião e proibição de PowerPoint. Foi uma das raras vezes que vimos Paladino sorrir e elogiar novas práticas. O estagiário conseguiu elogios de um conservador, um feito e tanto.
Paladino não sobreviveu ao Compliance. Seu estilo polêmico desencadeou um processo por assédio moral. Ele se acumulou a tantos outros de anos anteriores, mas, dessas movimentações políticas, achou-se por bem levar uma denúncia a cabo e Paladino foi sumariamente aposentado. Sua saída foi acompanhada de uma queda incrível na produtividade geral. Pior que a queda na produtividade foi o impacto na saúde mental. Ainda existirão estudos sérios sobre como reuniões afetam a qualidade de vida e causam danos aos seus participantes. No meu caso, se perguntado se prefiro levar uma surra ou ir para uma reunião, pergunto na hora:
— Quantos vão me bater?

