A Segunda-Feira
Dizem que a segunda é o termômetro de como nos sentimos em relação ao trabalho. Se estamos bem nela, o ambiente é bom. Caso contrário, estamos numa tragédia, o que, de maneira apocalíptica, me parece a maioria dos casos. Mas ainda assim custa-me acreditar que, mesmo amando seu trabalho, alguém possa gostar de uma segunda-feira. Chutaria que é a exceção.
Como naquela esquete do Porta dos Fundos, onde a personagem chega dando bom dia geral e o Fábio Porchat joga a realidade nua e crua na cara dela. O Otávio, um antigo companheiro de trabalho, adorava esse vídeo e passava-o em alto e bom som no escritório, além de mostrá-lo para cada indivíduo que compartilhava o andar com ele. Confesso que ele era um dos motivos pelos quais as segundas ficavam piores naquele ambiente. Sabe aquela figura que vem conversar com você e a primeira coisa que faz é olhar no seu monitor? Ah, que ódio!
Para além disso, ele usava aquela famosa técnica de "jogar um verde para colher algo". Iniciava um assunto sobre o qual não estava escolado, para obter informações. Era mestre na arte de juntar uma colcha de retalhos e mapear todos os pormenores corporativos. Era uma fonte primária das fofocas e das maldades nas rodinhas de conversa. Dessa maneira, alimentava um misto de adoração e medo de sua pessoa.
Isso chegou à alta gestão da empresa. Otávio era usado como mensageiro e informante. Todo mundo adora uma fofoca, mas odeia o fofoqueiro. De qualquer maneira, Otávio era um odiado útil. Ninguém sabia exatamente a descrição formal do cargo dele. Essa segunda função, que confesso era exercida com maestria, sombreava qualquer desempenho operacional do fofoqueiro.
E as segundas-feiras eram repletas de histórias otavianas. Além de ter xeretado nas mídias sociais de todos, seletivamente as maldades eram distribuídas. Sempre em tom que gostam de chamar de passivo-agressivo. Nunca gostei de fazer pseudo-psicologia, mas aqui o termo se aplica bem. Ele nunca levantou a voz para ninguém, nunca fez uma ameaça direta, mas era o terror do escritório. Toda segunda-feira já esperávamos a vítima de Otávio para o dia, e potencialmente para a semana.
Digo isso porque já senti na pele a maldade, sem sequer ter provocado a fera. Certa feita, matei uma sexta-feira, combinado com meu chefe, e fui viajar. Caí na besteira de postar uma mísera foto sorrindo e exaltando uma caipirinha. Na segunda-feira, estava na boca corporativa. "Problemas com álcool" e "malandragem de se dizer doente para viajar por aí" foi a história que circulou. Na verdade, olhando em retrospectiva, acho que provoquei a fera sim. Me chamaram naquelas rodas de avaliação 360 e uma parte deveria ser sigilosa. Nada era sigiloso para Otávio. Falei algumas verdades. Ele nunca me perdoou.

