A verdade está no trânsito
Existe uma grande variabilidade de como nos alimentamos no mundo corporativo. Alguns comem em cativeiro, levando marmitas. Opção tipicamente saudável e eventualmente econômica, mas que às vezes tem um custo social de dividirmos com o olfato dos colegas nossas escolhas. Aquela tilápia pode deixar um micro-ondas impregnado.
Quando o ticket sobra, ou é carregado, lá nos encaminhamos para opções mais caras, eventualmente um shopping. Essa era a realidade do Carlinhos. Adorava uma marmita na maior parte do tempo, uma praça de alimentação de vez em quando e, em ocasiões especiais, um restaurante requintado em bairro nobre. Carlinhos tinha rotina e disciplina como sobrenome.
Cortês no trato, funcionário antigo e prata da casa, o contas a pagar jamais seria tão eficiente sem ele. Filho da carreira Y, nunca almejou ser gestor, mas sim ser reconhecido como especialista no que faz. Contas a pagar de empresa multinacional exige a disciplina, dedicação e honestidade de Carlinhos. Também sempre evoluindo com MBAs e cursos de especialização.
Carlinhos era um grande personagem da comunicação interna e mentor do programa de estágio. Um querido, em resumo. Mas algo nos almoços deixava as pessoas apreensivas com Carlinhos. Nessas ocasiões especiais dos bairros nobres era necessário um deslocamento de carro. Carlinhos fazia questão de ir com o carro dele, afinal ele era um feliz contemplado com a vaga interna de garagem, benefício orgulhosamente conquistado.
O problema é que Carlinhos se transformava, sem meias-palavras, num animal dirigindo. Era xingamento a rodo, semáforos vermelhos vazados, excesso de velocidade, direção perigosa… Andar com Carlinhos alguns quilômetros era risco de vida. Com o tempo, as pessoas passaram a evitar almoçar fora com Carlinhos. Mais tempo ainda, e passaram a evitar o próprio Carlinhos. Ele precisou se contentar em almoçar apenas marmitas e sozinho. De preferência sem tilápia.

