Abraça Árvore
Termos pejorativos são bastante comuns nas organizações. Melhorou bastante o cenário nos últimos anos; me parece que a tendência é que eles ainda permaneçam, mas restritos a pequenas rodinhas. Aquelas que o pessoal forma no café com colegas de estrita confiança para desancar a empresa, a área ou alguém. Nessas rodas, a Eliene sempre era pauta. Pioneira na sustentabilidade, antes de chamarem a área de ESG, o pessoal a elegia como alvo fácil.
Ações como colocar na assinatura do e-mail “antes de imprimir, pense no meio ambiente” ou a declaração de guerra aos copinhos plásticos eram promovidas por ela e prontamente bombardeadas pelos colegas. O famoso apelido de abraça-árvore veio com a campanha “plante uma árvore”, quando mudas foram distribuídas pelo escritório. O programa de voluntariado também não teve muito sucesso, pois era aos domingos.
Ainda assim, Eliene era incansável. Nunca vou saber dizer se por genuinidade ou visão de longo prazo. Digo isso porque podia prever: quando a empresa foi abrir capital na bolsa, a área dela foi uma das mais requisitadas. Era preciso contar uma boa história de ESG. Até o pessoal do banco de investimento contratado procurava a Eliene. Foi alçada às mesas e discussões mais estratégicas daqueles tempos. Dizem que até ações da empresa ela recebeu no pacote de compensações.
O relatório de sustentabilidade daquele ano foi turbinado, lançado até pelo CEO em pessoa. Eliene passou a dar palestras e a sair em jornais e revistas de tempos em tempos, dando entrevistas. A área da Eliene cresceu, virou diretoria, vieram gerentes, coordenadores, muito orçamento. De abraça-árvore a talento indispensável à corporação. O pessoal do café assistiu a tudo falando horrores, mas cada vez mais impressionados com a dimensão desse abraço em árvores.
As preocupações de Eliene se sofisticaram, como emissão de carbono; os eventos também subiram de patamar e envolviam viagens internacionais para encontros como a COP e conferências na ONU. Mas, num evento interno, a festa de final de ano, Eliene tomou algumas taças de espumante a mais. Era para vir de táxi, porém estava de carro. No caminho até sua cobertura, foi acender um cigarro que acabava de comprar numa conveniência. Bateu o carro em um terceiro, nada grave. Rapidamente chamou o advogado da empresa. Ela discutia com o policial quando ele chegou. O caso foi rapidamente abafado. Eu soube. O cafezinho soube. A empresa soube. Ela continuou inabalável, abraçando árvores.

