Beijos e abraços
Bete gostava de beijinhos. Nada contra cumprimentarmos nossos colegas de trabalho, sinto-me até um mal-humorado por reclamar de efusivos "bom dias". Mas todo dia, beijinhos pela manhã me incomodavam.
Quando via Bete adentrar pelo corredor – éramos poucos no andar naquela época –, meu coração já disparava. O cortisol ia para as alturas. Buscava todas as estratégias para me esconder ou permanecer imóvel no meu posto. Bete respeitava algo que deveria estar na conferência de Genebra e não invadia a baia alheia para beijinhos. Esses eram reservados para quem estivesse dando sopa no caminho.
Ainda assim, era um terror para mim. Como bem observou meu amigo Antonio certa feita, eu mal sei dar um abraço. Não sei o que se passa, talvez deva trabalhar isso em terapia, mas sou muito ruim em cumprimentos. Ainda mais quando diferenças geográficas modificam a quantidade de beijinhos que serão aplicados. E a dúvida provoca lances dignos de drible de futebol, cada um indo para um lado. Situação absolutamente desconfortável. Paulistas, cariocas, gaúchos, mineiros... ninguém se entende.
O RH deveria padronizar essa questão. Bete era uma excelente profissional, seguia as regras. Acredito que, se dissessem a ela para evitar os beijinhos, não se faria de rogada. Nunca dividi isso com ninguém, tinha vergonha da minha inquietação. Não queria ser visto como um desmancha "bom dias". "Clima organizacional é tudo", dizem os especialistas. Aqueles beijos e eventuais abraços eram parte do bom clima do escritório.
Também não sei como os departamentos de compliance modernos tratam a questão. Abraçar pode? Beijinho pode? Devemos nos ater apenas aos "bom dias"? No máximo um "bom dia" mais efusivo? É permitido não cumprimentar ninguém? Será que posso atestar que sou muito tímido – não antipático – para ser isento de cumprimentos? Precisamos falar sobre isso. Urgentemente.

