Bernadão
A rotina pode ser libertadora. No mundo corporativo não.
Trabalhei com o Bernardão. Dividíamos a mesma baia. Era o início do século e já havia essa recomendação de tomar muita água. Creatina e whey protein da vida ainda não eram moda, mas água e ovos sim.
Também ainda não tinham sido inventadas essas garrafas modernas de água, de metal, ou essas que cabem 5 litros. Essa quantidade de água nessa época só nos galões de bebedouro, que tinham planilha específica para ver quem troca. Era uma guerra, pois aqueles galões eram pesados e a troca molhava a vítima da vez,
Mas voltando ao Bernadão e à rotina, como não havia as garrafas modernosas, utilizava-se um squeeze. Era um recipiente de plástico com um bico estranho na ponta. O problema é que esse squeeze, hoje presente somente em bicicletas simples, fazia um barulho quando se tomava a água rápido. Era até simpático o barulho, parecia um beijinho.
Então você pode se perguntar, e daí? O pepino aqui era que o Bernardo tomava aquela água como se estivesse com sede desértica toda vez. Independente dele já ter tomado três, quatro litros do nosso pesado galão. Ele fazia o barulho do beijinho e depois olhava ao redor com uma cara feia, duas vezes por hora. Às vezes grunia.
Isso pode não incomodar na primeira semana. No primeiro mês chateia. Mas essa rotina de beijinhos e grunhidos, após seis meses, mata. Não liberta ninguém, reforça correntes e gera ódio.
Então tentava vibrar empatia para conter meus mais sinceros pensamentos violentos. Só que o Bernadão não ajudava.
Trabalhávamos rotineiramente até tarde. Como celular, e ligação ou sms para ele, era artigo de luxo, a esposa dele ligava com frequência. Bernadão era bem indelicado para dizer o mínimo. Pensava que se tratava a esposa daquela maneira, o que faria comigo numa discussão pelo barulho do beijinho. Calava-me rotineiramente.
Outra do Bernadão era na hora do almoço. Sempre almoçávamos no refeitório, exceto na sexta-feira. E sempre um iluminado se levantava de sua baia, estrategicamente posicionada longe do Bernadão, e gritava:
- Onde vamos comer hoje? O que vocês querem comer?
Todo mundo já sabia que era no rodízio e o Bernadão sempre respondia:
- Carneeeeee, eu quero Carneeee.
Aquela entonação de carne me assustava. Bernadão se transformava num canibal.
Era jovem. Não existia o tal quiet quitting. Precisei fazer à moda antiga mesmo, pedir demissão e arrumar uma baia em outro lugar.

