Boia-fria
A inteligência prática de Bianca sempre me surpreendeu. Os talentos organizacionais oriundos das melhores escolas são quase previsíveis — vítimados pelas melhores práticas corporativas. Porém, sempre há espaço para o improviso, em especial naquela cadeira de assistente executiva.
Viagens aparentemente simples exigiam mais do que a logística de alguns produtos. Inscrições em eventos, palestras que os executivos participavam, reuniões com autoridades, coffee breaks internacionais — e lá estava Bianca improvisando e resolvendo vários problemas inéditos com uma desenvoltura incrível.
A dependência do CEO em relação a Bianca chegou a tal ponto que, certo sábado, ele foi fazer um serão na empresa e sequer conseguiu abrir a porta do próprio escritório. Além disso, era daqueles que não lia e-mails: Bianca fazia a triagem de quais ele deveria responder. Some-se a isso o controle da agenda, e Bianca estava sentada na cadeira mais influente da empresa.
O que todos sabiam, e por isso Bianca reverenciada como um Xeique árabe organizacional. Pela rotina absolutamente atarefada, ela não gostava de sair para almoçar. O tempo de deslocamento até um self-service lotado — onde era preciso lutar por comida e espaço — era precioso demais. Preferia fazer as refeições na cozinha do andar, acompanhada pelo pessoal do frango com salada ou daqueles que gostavam de gastar o vale no supermercado.
Sem agendar, o Diretor de Facilities a chamou para conversar. Aparentemente nervoso, mas convicto, anunciou que a cozinha seria desativada para almoços. O aroma das tilápias e dos salmões, que invadiam o andar dos C-Levels, levou o pessoal a alinhar com o próprio CEO e encarar Bianca. Mas ela não cedeu. Se o problema era esse, que desativassem os micro-ondas, mas não impedissem o almoço na cozinha. Viraria boia-fria sem problemas e continuaria com sua marmitinha.

