Café
Ninguém sobrevive a uma jornada corporativa sem café. Eu sei que existe a galera do chá, do limite de cafeína diário, dos horários limites e da gastrite. Mas o fato é que café é o combustível corporativo utilizado em larga escala. O restante é exceção.
Muito antes do propósito ou daquelas campanhas motivacionais de pertencimento, o café estava lá unindo os colaboradores nos escritórios. Certa feita, eu estava em uma empresa que não fornecia o café no andar em que estávamos. O café estava muito distante, no refeitório.
Dada esta restrição, o grupo se uniu. Compramos uma cafeteira simples e havia uma planilha semanal de quem compraria o pó, adoçante e açúcar, e uma planilha diária, com marcações hora a hora, da criatura que colocaria a máquina para funcionar. Funcionava melhor que o processo da empresa de que cuidávamos. Ali havia dedicação genuína.
Como na vida tudo tem seu porém, as dificuldades no café compartilhado não eram muitas, mas uma em especial vale o destaque. A Márcia gostava de “chafé”. O café que ela fazia era bem fraco, quase não colocava pó. O problema é que quando os demais faziam café, ela conseguia diluir. Mas nós não conseguíamos colocar mais pó no “chafé” da Márcia.
Parece bobo, mas não é. Não sei avaliar se a Márcia era competente. Só tenho certeza que, com o passar do tempo, ela passou a ser odiada. E o RH implantou aquelas avaliações com nome de matéria de matemática do colegial, a tal avaliação 360. Meu 360 não cruzava com o 360 da Márcia, mas sempre fui dado a saber dos pormenores do escritório, confesso. Quem não?
O fato é que, independentemente da performance profissional da Márcia, as pessoas queriam ela fora. Não se brinca com a qualidade do café no escritório, em especial em um modelo coletivo. Ela era consistentemente avaliada mal. Naqueles quadrantes malucos de avaliação, ela sempre estava abaixo. Por mais que o RH jurasse que a avaliação era técnica, baseada em resultados, o “chafé” da Márcia a condenava.
Não teve jeito e, com o passar do tempo, o “sistema” expulsou a Márcia. Ela foi movida de área. Provavelmente para um departamento mais próximo do refeitório, onde não se precisava do modelo de café coletivo. Talvez ali ela finalmente tenha encontrado uma avaliação mais justa das suas entregas organizacionais. Nós que ficamos no andar encontramos a paz.

