Cultura Organizacional
Sempre fui alguém que gosta de coisas abstratas. Acho que desde criança vivo num mundo de imaginação. Nas empresas, é preciso disfarçar essa subjetividade para atingir KPIs e objetivos concretos. Mas algo fascinante é a cultura corporativa. Tavinho era mestre no tema. De todos os lugares que trabalhei, nos últimos anos principalmente, o assunto é recorrente. Tem até aquela história de que a cultura come a estratégia no café da manhã, que Tavinho sempre falava.
Ele me apresentava declarações de empresas de tecnologia que não tinham uma estratégia clara, apenas uma declaração de cultura. Minha subjetividade oculta se sentia vingada frente àqueles anos todos de metas duras e números secos. Finalmente, empresas de sucesso se baseavam em sonhos compartilhados. Tavinho era inspirador e trazia luz ao meu cubículo escuro de planilhas de Excel.
Certa vez, junto com a implantação de um sistema super complicado, Tavinho começou um projeto de gestão de mudança. Na verdade, vou deixar de lado meu preconceito com termos estrangeiros e vou chamar o projeto pelo que ele era: change management. Acho que fica mais em linha com a pompa e circunstância que uma iniciativa desta merece. Nomes tropicais tipicamente não são associados ao glamour corporativo importado das mais renomadas universidades americanas.
Fato é que este projeto começou com uma bateria de treinamentos bacanas e algo que eu realmente sempre gostei: team building, novamente deixando a língua tupiniquim de lado. O team building está para as empresas assim como as excursões — ou estudo do meio, como queiram — estão para o ensino fundamental. Qual criança não espera por este momento glorioso da vida escolar? Pois é, qual "colaborador" não anseia por um bom team building? Em especial, quando conduzido fora do ambiente de trabalho.
Nesse ponto, o team building se iguala ao encontro dos executivos, ou líderes, ou alta administração — cada lugar tem um nome. Mas este é exclusivo para quem tem cargo de gestão, tipo um camarote VIP do mundo corporativo. Outro evento que arrasa quarteirões são aqueles de vendas, seja para fomentar as metas, seja para comemorar. Mas, novamente, aqui eles não são abertos a todos, por isso o team building acaba sendo algo mais democrático. Fato é que Tavinho sempre deixou claro que esses eventos nutrem a cultura corporativa, junto com as ações de comunicação interna.
Essas ações de comunicação interna, segundo o mesmo Tavinho, nos "deixam na mesma página". Eu sempre achei que era mais algo como aqueles e-mails com notícias da empresa ou algum mural na entrada do prédio, que hoje é eletrônico — uma bela TV gigante com recados. Pura ignorância minha. A comunicação interna, nas palavras de Tavinho, nos ajuda a disseminar a cultura e alinha propósitos. Ah, o propósito... daria um capítulo à parte se eu reproduzisse o que Tavinho dizia sobre ele.
Mas, infelizmente, o final do projeto de change management acabou sendo algo bem tupiniquim. Tavinho foi deixado de lado e entrou um pessoal da pesada, daquelas consultorias mais secas e contratadas por áreas mais duras, como o tal conselho de administração. Toda vez que ouço conselho de administração, lembro da Sala da Justiça do desenho. Enfim... mas voltando ao final do projeto, não teve nada de cultural. O resultado caiu, o propósito foi rapidamente esquecido e o Tavinho, deslocado. Após todos os cortes que fizeram nas estruturas, quem sobrou, com mais trabalho, pegou o que restou da cultura e batizou o projeto pra ficar na história. O gringo change management virou o brazuca Caveirão.

