Dona Flor
Dona Flor
Sempre tentei entender a razão de os funcionários da limpeza serem terceirizados. Sim, a questão é financeira e eles não exercem atividade-fim, diriam os letrados em gestão. Pode ser, mas ainda assim, provavelmente por limitações que são minhas, acho esse conceito de atividade-fim o fim da picada. Toda pessoa deveria ser fim — ou só porque a empresa não faz cafezinho, quem faz cafezinho é menos fim?
Dona Flor era diferente. Por algum acaso do destino, ela já estava na empresa há quase trinta anos, não era terceirizada. Vestia aquele uniforme horrível, é verdade, mas tinha convênio médico, transporte, vale-alimentação e refeição. Já não dava conta da limpeza mais pesada, mas fazia o melhor café do andar. O "passadinho", apelido carinhoso que ela dava ao próprio café, rendia grandes elogios e amizades. Das poucas unanimidades organizacionais.
Então eu, que estava tranquilo, fui designado para o planejamento estratégico. Que nome bacana para uma função. Algo que se intitula planejamento estratégico já nasce fadado ao estrelato. Fiquei extasiado com a designação. Para além disso, uma consultoria havia sido contratada para conduzir o trabalho. O ápice corporativo para um mortal como eu. Estratégia e consultoria. Finalmente entenderia como funcionam as grandes decisões.
Porém, a real é que virei um grande agenciador interno. Minha função era apresentar os consultores aos meus nobres colegas organizacionais. Claro que não era o que meus colegas achavam, e nunca desmenti a mística de que eu estava envolvido na "estratégia" futura de nossa organização. Aquilo também iria ficar lindo no currículo e nas próximas entrevistas.
Mas, da série de coisas que nunca entendi, entra a camisa dos consultores homens. Eles, muito bem trajados, vestiam camisas com letras que pareciam aleatórias. Mas essa falsa percepção dá a dimensão da minha ignorância da moda da elite organizacional. Fui descobrir que as letras representavam as iniciais de seus próprios nomes. Aquilo me espantou a princípio, pois, na minha pequenez, sempre ouvi que nós deveríamos vestir a camisa da firma. O pessoal ali, na verdade, vestia a própria camisa. Enfim, achei curioso, mas nunca tive coragem de fazer uma. Mas toda sexta-feira, no famoso casual day, visto uma pólo com o logo da firma, já que não posso vestir as de corrida, que viram pijamas.
Em certa ocasião, entre um agenciamento e outro, o PVT, ou melhor, Paulo Vinícius Tavares, um jovem recém-saído da faculdade, estava na sala comigo. Em breve ele entrevistaria mais um gerente desesperado tentando justificar sua função. Antes da reunião, ele chama Dona Flor, com aquele ar aristocrático e um tom de voz profundamente irritante, e brada:
— Dona Flor, traga-me mais snacks para a reunião.
— Traga o quê, menino?
— Snacks, Dona Flor. São o que você nos serve sempre. Castanhas, pistache, barras de cereal. Enfim, Dona Flor, você sabe. Reponha os potes que estão acabando aqui na mesa.
— Ah, entendi, filho... Pode deixar.
O que Dona Flor não imaginava é que uma das funções de PVT era achar "iniciativa de valor". E uma destas iniciativas de valor impactava Dona Flor. PVT, o aristocrata, achou uma brecha que poderia permitir a demissão de funcionários antigos em funções consideradas fora do negócio principal. Aquilo gerou um tal valor presente líquido altíssimo. PVT era um gênio das brechas legais e das finanças em tão tenra idade. Dona Flor alimentava o inimigo, ainda que sua função não fosse fim.
Poderia aqui dizer como foi a festa de despedida de Dona Flor. Deve ter sido emocionante. Infelizmente, também eu virei uma iniciativa de valor. Não percebi que fui para o projeto porque estava ocioso na área. Meu gestor não soube me defender e já fui logo na primeira leva de iniciativas. O agenciamento não me salvou. Eu era uma tal de "low hanging fruit", que PVT me explicou nada ter a ver com fruta. A expressão remetia a uma ação rápida, fácil e de resultado imediato. A Dona Flor era algo mais complexo. Ela só iria ser demitida na leva que dependia de negociações com o sindicato. Ganhou uma sobrevida, mas não muita. PVT era implacável.

