Elogios
Tive que sentar quando o Toni chorou. Só tinha dito que adorava as cores que ele colocava nas planilhas de orçamento. Era genuíno, porque quem já viu uma planilha de orçamento sabe o quão cinzas e sem sal elas podem ser. As do Toni não, sempre com cores significando algo. Havia um bom gosto que era sutil, mas tornava aquele pesado processo orçamentário mais leve.
Mas então por que sentei? Porque Toni era daqueles financeiros clássicos, na verdade oriundo da contabilidade tradicional, dos sujeitos que passam toda a seriedade do mundo. Ainda que as planilhas fossem coloridas, ele se vestia e comportava de maneira absolutamente sóbria. Era educado, mas sempre sisudo. Dava bom dia com cortesia, mas sem maiores intimidades. Comentava a última rodada de futebol, sempre com tom social, mas não de pertencimento.
Toni jamais choraria. Só que chorou. Chorou no cafezinho, no meio da multidão corporativa que se reúne antes do expediente efetivamente começar para trocar pormenores do escritório. Um elogio bobo e o homem desabou. Sentei no banquinho, que por sorte estava próximo e era alto. Caso contrário, a queda seria brusca. Fiquei absolutamente desconcertado.
Somos treinados para dar devolutivas, ou se preferirem, o famigerado feedback. As sessões são fechadas e começamos pelos elogios e partimos para os eufemismos, ou melhor, oportunidades de melhoria. Ah, sejamos francos, partimos pra crítica mesmo. Algumas almas conseguem dar conselhos úteis e traçar planos decentes. Posso ser um pessimista, mas no geral é um desastre.
Só que voltemos aos elogios do tal feedback. Toni, profissional experiente, já deve ter passado por diversas reuniões onde ouviu elogios pois era um profissional competente e dedicado. Mas talvez ninguém tenha falado sobre as cores de sua planilha. Vou um pouquinho além, me arriscando na psicologia de botequim, para dizer que aquelas cores eram a expressão mais íntima de Toni que ninguém tinha notado.
O problema aqui foi que depois do choro, Toni teve uma tela azul. Tela azul? Sim, aquela que a Microsoft acaba de aposentar, então aproveito para usar pela última vez o paralelo. Tela azul é quando o Windows trava, lembra? Ele precisa ser resetado. No caso de Toni, após o choro, ele precisou ser atendido como se tivesse tido uma crise de pressão baixa, e saiu de maca do escritório. Foi afastado por burnout. Tudo desencadeado pelo meu elogio. Vivo com a culpa até hoje.

