Espaço aéreo
Tomas é alto e tem voz grossa. Sujeito imponente. Só sua presença física é suficiente para ter destaque nos ambientes. Trabalhávamos juntos.
Todos nós temos manias. Com o passar do tempo percebo que sou cheio delas. Será que com o passar do tempo tenho ficado mais chato? Talvez. Mas fato é que tenho pavor de quem não respeita meu espaço aéreo. Tomas é uma dessas figuras invasivas.
Melhor darmos um passo atrás aqui e definir o que chamo de espaço aéreo. Provavelmente deve ter um nome mais chique, fica pra pesquisar no ChatGPT mais tarde. Por ora, vamos ao que estou querendo dizer.
Espaço aéreo é a distância mínima entre duas pessoas. Só isso. É um pouco além do “não me toque”. Até porque tocar é o cúmulo. Essa distância mínima é bom senso. Trinta centímetros talvez? Não sou um cara cartesiano então não vou me arriscar cravando normas.
Essa distância mínima deveria ser aplicada em várias etapas da jornada corporativa. Começa pelo transporte público ou no ônibus do aeroporto que nos leva ao avião. No cafezinho. Naquele papo descontraído, em pé, antes da reunião. Mas principalmente no elevador.
Tinha pavor de pegar elevador com o Tomas. Voltando à matemática (ok, não sou cartesiano, mas aqui é o único jeito), ele ficava a 10 centímetros ou menos durante a conversa. Quase na zona de não me toque. Um horror.
Some isso ao que eu já disse. Uma voz grossa e um físico avantajado. O combo do incômodo. O suficiente pra eu evitar ao máximo almoçar com ele só para não dividirmos o elevador.
Também havia o risco de dividirmos um sofazinho no restaurante. Vários restaurantes oferecem essa opção e quando vamos em bando corporativo para almoçar, a distribuição dos lugares pode ser aleatória. Dividir sofazinho com o Tomas no almoço de sexta é o fundo do poço.
Será que ele faz de propósito? Pode ser, porque além de tudo ele é daqueles sujeitos que gosta de se impor. Ou não. Estou eu criticando o Tomas, mas na verdade eu que virei um chato. Será?

