Feedback Estruturado
Everson era um cara muito querido na equipe. Resultados brilhantes, uma carreira sólida, construída em quinze anos na empresa. Gabaritou nos quesitos de lealdade e entrega na sua jornada corporativa. Tinha a sorte de ser seu gestor. E chegava aquela temporada do ano em que alguns temem, outros aproveitam: a avaliação de performance e sua devolutiva, o famigerado feedback.
Empresa de RH estruturado, daquelas que não te deixam na mão. Existia manual para tudo, instruções claras de como avaliar e fazer a devolutiva. Tudo conforme as melhores práticas oriundas das melhores escolas de negócio. E, no caso de dúvida, havia alguém para te ajudar a estruturar.
Esse ano até resolvi inovar. Para além do apoio do pessoal de Gente — posso dizer que adoro essa nomenclatura "Gente" — descobri, nas minhas andanças erráticas pelo LinkedIn, prompts para usar na inteligência artificial e simular a entrevista de feedback. Eu precisava daquilo. Ainda que o RH desse todo apoio, dessa vez ia precisar recusar. O que eu precisava dizer ao Everson era segredo. Na verdade, era indizível. Não havia preparação possível. Só alguém frio, como o ChatGPT, poderia me ajudar. Ainda assim, usei minha conta pessoal — não queria o menor risco de que isso vazasse.
Chegou o dia. Poucas vezes tremi. Estava mais nervoso que na entrevista do meu primeiro emprego. Já tinha dado diversos feedbacks ao Everson, todos muito produtivos. Ele tinha um plano de desenvolvimento que estava correndo, performance adequada, enfim, no geral tudo bem tranquilo. Ah, eu disse que o comportamento dele era exemplar? Pois é.
Mas minhas mãos suavam, meus pés tremiam e cheguei a gaguejar. Comecei com os clássicos elogios, trouxe vários exemplos de entrega acima da média e mostrei seus indicadores sempre em linha com as expectativas. Conversamos um pouco sobre seus pontos de desenvolvimento, como ele poderia se envolver um pouco mais na formação dos profissionais mais novos, ou tentar usar mais as novas tecnologias. Parecia tudo normal, mas não estava. O que eu realmente tinha que dizer me martelava. Não conseguia disfarçar. Ele percebeu.
Finalmente, pensei, enquanto ele dizia algo sobre o plano de desenvolvimento: é agora ou nunca! Lembrei de todos os colegas que me exigiram que aquilo fosse dito. Elenquei que todos os esforços que Everson fez ao longo dos anos, todos os resultados que entregou, tudo estava sendo colocado em xeque se a situação não fosse resolvida. Ainda que não tive — porque não entendia como — apoio do prestativo Recursos Humanos, precisava resolver do meu jeito. Precisava ser jeitoso, precisava ser estratégico, precisava ser carinhoso. Mas tudo o que consegui foi apenas interrompê-lo e gritar do fundo do meu coração:
— Everson, você tem bafo!

