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O almoço rolava tenso. O clima pesado da empresa foi até o restaurante. Época de orçamento é assim mesmo — uma guerra por recursos e acusações de todos os lados. Os chamados de "staff", ou seja, a base que trabalha, bradavam contra a tal liderança ou alta gestão. Cada um nomeava os executivos do seu jeito, mas o xingamento era por igual. Eu comia meu parmegiana calado, saboreando as batatinhas e concordando com algo vez ou outra.
Os demais que não queriam entrar na discussão rolavam seus feeds infinitos. Como será que era a vida antes das mídias sociais? Como as pessoas se ignoravam nos almoços e elevadores? Enfim, mas nem só de feed vive o colaborador. Marcinha, uma das mais ferrenhas no ataque ao sistema, sacou seu celular, segurou em frente ao rosto e se transformou. Em questão de segundos, sua feição mudou do ódio para o sorriso mais alegre que alguém poderia ter naquele momento. Voltou para a cara de ódio logo depois do flash.
Não aguentei de curiosidade e entrei no Instagram dela. Aquilo me chocou — coisa de psicopata mesmo. Ou sociopata, não sei a aplicação técnica dos termos. O fato é que um sorriso daqueles, em meio àquele almoço caótico, era um feito para poucos. No post onde os dentes brilhavam, fruto de algum efeito maluco, lia-se: "Almocinho light com o pessoal da firma". Pensei comigo que de light só o frango com salada, também devidamente fotografado na imagem seguinte. O almoço fora um sanatório. E o “pessoal da firma” estava em polvorosa. Sorte que não foram retratados.
Também me interessou a cronologia do dia da Márcia. Começou com um "tá pago", com a foto da academia, e seguiu com "cafezinho da nutri", mostrando ovos mexidos. Basicamente, a mesma estratégia de um sorriso regado ao cardápio do momento. O padrão se repetia. Um amigo entendido, com quem comentei discretamente meus achados, chamou atenção para os filtros que ela usava. Fiquei com inveja. Me explico: meu cabelo está rareando. Nas poucas e mal tiradas fotos que posto, tenho percebido. Tenho pavor de perder os cabelos. Será que os filtros da Márcia podem me salvar?
Mas, para além dos filtros, já estou escolado em mídias sociais e suas aparências. Sempre gostei de assistir vídeos de Goldens. São uma graça como são carinhosos. Assisti tantos que acabei comprando um, pagando em diversas prestações. Não sabia que dava para financiar um cachorro. Além de ignorar sobre como se paga, ninguém me contou que o Vavá se transformaria num monstro. A falta de filtros da vida fora do feed fez o Vavá comer meu sofá, destruir o jardim, quase morrer engasgado com um caroço de manga — entre outros.
Sem filtros, Vavá quase me rendeu um divórcio. Mas, como a Márcia me ensinou, sociopatia é tudo. Tenho postado diversas fotos abraçando o Vavá, passeando com o Vavá, na praia com o Vavá. Ainda não consigo sorrir como a Márcia ou disfarçar meu cabelo rareando. Mas sempre vai a legenda com Vavá: #amoreterno

