Levando a sério
O pessoal de TI sempre foi disruptor. Logo no começo da carreira — mas não vou revelar aqui quanto tempo, pois passei a esconder a idade depois dos 40 —, o pessoal de tecnologia sempre me espantava. Para o bem e para o mal. Estávamos implantando aqueles sistemas complicados do início dos anos 2000, quando do nada aparecia um programador barbudo — lembre que a barba virou moda mais tarde — e uma garrafa de dois litros de Coca-Cola.
Ninguém sabia ao certo o que ele fazia. Ele também não fazia questão nenhuma de explicar. Era especialista de uma sigla complicada, que rodava o mundo quando os projetos precisavam de seu conhecimento. Ele e sua garrafa de Coca-Cola de dois litros.
Nos últimos tempos, assim como a tecnologia, meus colegas da área mudaram muito. Não vejo mais as garrafas de Coca-Cola, mas todos eles quebraram com os códigos de horário, cartão de ponto e jeito de se vestir.
Mais recentemente trabalhei com Celsinho. Ele é do digital — e digo isso por ignorância, porque ele faz algo mais especializado que isso, mas aprendi que quando digo digital pareço escolado, pois é um guarda-chuva bem grande. Isso faz pouco tempo, mas hoje, em vez de digital, diria que ele trabalha com IA, que tem o mesmo efeito.
Celsinho também era um disruptor. Já tinha o kit completo da modernidade: belas tatuagens, tênis, camisetas e tudo mais. Mas o item que eu mais invejava: a bermuda.
Desde o estágio sonhava em trabalhar de bermuda. No calor escaldante, eu colocava uma calça social. Mesmo naquela época, achava horrível e quente. E na luta do ar-condicionado corporativo, as moças sempre puderam vir de blusinha e saia, e toca eu de calça social e camisa, ouvindo impropérios por pedir uma temperatura amena no ar-condicionado. Uma bermuda mudaria o jogo naqueles tempos. O horário de almoço no verão permitiria mais passeios na rua e tornaria os saudosos PFs das padarias mais amigáveis. Naquela época, sem filhos, daria mais valor ao benefício de vir de bermuda do que ao convênio médico.
Pois bem, um dia resolvi me inspirar no Celsinho, realizar um sonho juvenil. Enchi o peito de coragem e coloquei uma bermuda. Na verdade, vesti e tirei várias vezes, até tomar o rumo do escritório, que ficava num prédio moderno e recheado de pessoas vestidas informalmente, e subi para o andar.
Mal cheguei, meu chefe me chamou, perguntando o motivo da bermuda. Não deu tempo de explicar tudo o que pensei e ele, dando um “feedback sincero”, disse que, em nosso setor, eu deveria me levar mais a sério. Fiquei arrasado. Meu próximo passo era deixar o bigode. Enterrei esse outro sonho.
No café, fui perguntar ao Celsinho por que ele achava que em tecnologia eles podiam usar bermudas, bigode e afins, e no meu setor não. Achei que ele iria me consolar, mas ele foi impiedoso:
— Não basta querer. É preciso sustentar o look.

