Maternidade Corporativa
Empresas não são sua família. Em algum momento em que a comunicação tentou me dizer isso, fiquei cético. Até porque, não sei a sua, mas minha família não funcionaria num escritório. Seria um quebra-pau.
Ainda assim, lá passamos boas horas, senão a maioria delas. Desenvolvemos intimidades — algumas distantes, outras que podem ser chamadas de amizades. Era o que tinha com a Ivone. Logo que cheguei na firma, ela era uma especialista brilhante e paciente. Aprendi tudo o que precisava para entrar num setor completamente novo. A paciência dela com novatos era notável.
Sentávamos frente a frente. Era uma amizade relativamente próxima nas baias, mas longe na vida fora. Sequer almoçávamos juntos. Mas existia uma cumplicidade genuína naquelas horas de labuta. Tanto que eu não conhecia o Cristovão, famoso marido. Certa feita, Ivone olhou para mim, no meio do expediente, e me disse que iriam ter um bebê.
Os meses seguintes foram de preparação para a licença-maternidade. O chefe da área — sim, o chefe, porque de gestor ou líder não tinha nada — estava preocupado. Perderia a melhor especialista e teria que chamar algum profissional que ele se sentia ameaçado. Ele gostava da Ivone porque ela nunca transpareceu querer ascender a gestora. O potencial era imenso, mas ele admirava a paz com que ela levava sua carreira, sem desejar muitas emoções.
Soube que o Cristovão foi promovido. Assumira uma posição na Lituânia. Até hoje mal sei onde fica a Lituânia — nem sabia que pessoas poderiam ser promovidas do Brasil para lá. Ivone se mudou sem uma festa de despedida. Não conheci Cristovão nem o bebê. Espero que estejam bem. E o lugar de Ivone foi preenchido por um trainee.
O trainee foi tratado "como filho" pelo chefe. Em menos de dezoito meses, levou o lugar do pai. Numa das únicas previsões que ele fez certo, realmente o cargo dele estava ameaçado por alguém mais novo. A família corporativa é mesmo assim, pouco briga, mas a disputa de herança é fatal.

