O Clima
A palavra clima pode ser tantas coisas: um grande Bombril organizacional. Ela pode ser da categoria do futebol e da novela, temas que usamos para conversas amenas, e discutir sobre o clima. Se esquenta, se esfria, se chove. Uma maravilha para evitarmos qualquer profundidade nas interações.
Profundidade essa que nos leva ao segundo uso de clima, se a conversa vai para um tema corporativo mais pesado, ou até uma polêmica política, lá vamos para um climão. A sobrevivência de longo prazo no mundo corporativo exige uma habilidade ímpar para evitar o climão. É fortemente recomendável que, ao começar uma discussão polêmica ou polarizada, a pessoa fuja. Não é covardia ou inapetência; é, de fato, inteligência social.
E o terceiro uso de clima é o famoso clima organizacional. Aquele conceito abstrato, mas que quase dá para agarrar na prática de tão pesado que fica na firma. Um bom ou mau clima se sente já na recepção de uma empresa. É difícil mudar um clima organizacional, muito dirigente se descabela com o tema. A literatura é farta, os cursos também, mas a realidade é dura com os gestores. Um clima ruim é duro de salvar e um clima bom é fácil de estragar.
O que nos leva ao saudoso Márcio. Trabalhei com ele alguns anos. Um craque nos climas. Na segunda-feira navegava como ninguém prevendo como seria o clima da semana. Todos já separavam suas roupas em acordo com a previsão dele. Também era um cara que desarmava qualquer bomba. Discussão sobre eleição? Modelo econômico? Reputação da Diretoria? Qualquer ameaça de climão e lá estava Márcio colocando panos quentes. Por fim, o RH sempre reconhecia Márcio como um agente do clima, algo como um catalisador de boas vibrações. Ele realmente era um cara positivo, fazia bem ao clima organizacional.
E por que nunca era promovido? Não sei. Pelas costas, chamavam ele de coisas pesadas como picolé de chuchu, isentão, inocente, passivo-agressivo e dissimulado. A coisa piorou de dez anos para cá. A meteorologia avançou, e no celular as pessoas se informavam sobre o clima. Durante as eleições, queriam que Márcio se posicionasse, sempre causando um climão. E o clima organizacional piorou muito, os agentes passaram a ser mal vistos. Márcio se deprimiu e se afastou. Como uma TV velha, foi desligado. A última notícia dele que tive foi que passou a cultivar bromélias e nunca mais quis saber de qualquer clima, seja ele meteorológico ou organizacional.

