O Gringo
Artigos importados eram um luxo para poucos no final dos anos 80 e início dos anos 90. Desde coisas bobas, como um videogame, passando por artigos de luxo, como carro importado. Falar inglês e ir para Miami também não era algo trivial. E gringos eram vistos com um ar de estranhamento e admiração, coisa de turista no Rio de Janeiro. Não sei como era nas organizações — ainda não estava lá —, mas chutaria não ser muito diferente.
Quando cheguei no mundo corporativo, o inglês de todo mundo já era dito fluente, ter um videogame novo não era privilégio e as pessoas já iam para Miami. Ainda assim, gringos expatriados ou colegas que trabalhavam fora já eram vistos com uma aura de admiração. Assim era Victor, um brasileiro que passou alguns anos fora, na matriz, fazendo algo importante. Tanto assim que voltou com a pompa e circunstância do cargo ter LATAM no nome. Não bastava ser o líder nacional, mandava mesmo da América Latina para baixo.
Isso dava a Victor um status incrível. Viajava muito e tinha as melhores histórias. Comprava vinho em Santiago, comia a melhor carne de Buenos Aires e ainda conhecia todos os pontos turísticos da Cidade do México. Qualquer almoço com Victor era um mar de histórias de viagens. Outra coisa interessante foi que ele foi o primeiro a chamar seus subordinados de time. Antes, as pessoas tinham equipe, mas Victor tinha um time. Expressão importada que pegava super bem.
Falando em expressões, Victor falava os conceitos importados, cada vez mais presentes ao longo do tempo, com sotaque americano no inglês. Um lorde pronunciando Feedbáque, Qui PI Aís, assessment. Outra coisa bacana era quando ele esquecia o termo em português e falava em inglês, perguntando: “Como se fala isso em português mesmo?”. Isso o separava dos reles mortais. Mas o principal era quando recebíamos gente da matriz. Esses gringos eram tratados como deuses. Todo mundo fazia questão de dar uma palavra em inglês com eles, mostrar a fluência. Não importava o cargo do gringo, queriam mesmo um happy hour com eles ou discorrer sobre o Brasil.
Uma vez o Victor recebeu o Mike. Além do status de gringo, era consultor. Isso é um combo avassalador. Nada mais pomposo nas corporações do que um cara de fora da consultoria. Sua palavra é praticamente a Palavra do Senhor aqui em terras tupiniquins. A questão aqui — sei que tenho sido apocalíptico em minhas histórias — é que o gringo consultor veio fazer um downsizing. Além do downsizing, esse era LATAM. Victor, como é mesmo que se diz? Foi fired. Mandado embora mesmo. Com cartinha em inglês. Puro glamour.

