O Mentor
Ser mentorado pelo CEO da empresa é o ápice para um jovem talento. Essa era a denominação para alguns recém-formados considerados de muito potencial e que entravam na empresa para terem carreiras turbinadas até o topo da cadeia alimentar corporativa. Gilberto, presidente da empresa, um executivo muito interessado no desenvolvimento das pessoas se voluntariou para mentorar alguns poucos felizardos.
Ele tinha uma trajetória brilhante. Também entrou nas categorias de base organizacional, apesar de não ser considerado um talento na época. Na verdade, não se separavam os talentos em outros tempos. Pelo menos não formalmente. Não lembro quando a moda pegou, mas o fato é que, mesmo livre de rótulos, ascendeu até a presidência da organização em anos de trabalho.
Pois ele me chama para almoçar e, antes da entrada, lança a bomba:
— Estou preocupado com este programa de mentorado.
Pensei comigo: um executivo acostumado a tantos desafios, cenários adversos e projetos gigantescos, à frente de uma empresa igualmente grande, estava especialmente preocupado com o programa de mentorados?
— Não sei o que dizer, não me prepararam. Pediram para eu focar no exemplo, na trajetória. Claro que posso falar de esforço e dedicação, mas isso eles já sabem. O resto é sorte, circunstância, destino, sei lá. Isso não se ensina.
Aquilo me chocou. Continuou dizendo que, mesmo sobre sua própria história, não via nada de especial. Confessou o quanto esse pedido de ser mentor o havia surpreendido e o fizera pensar sobre a própria vida. Estava em crise e se sentia sozinho.
O almoço acabou, o programa foi para frente. Gilberto foi ficando cada vez mais introspectivo. Sua segurança de outros tempos deu lugar a uma profunda crise de confiança. Apesar dos resultados robustos, dos acionistas satisfeitos, das capas de revistas e das palestras em diversos eventos, ele não conseguia identificar um legado. Não um que justificasse seu título de mentor.
Um dos jovens talentos acendeu uma luz no fim do túnel. Gilberto me chamou para mais um almoço e, desta vez, estava radiante. A alegria voltara, a confiança também. Falava novamente com firmeza sobre sua trajetória profissional. O jovem talento lhe confessara que Gilberto era um grande exemplo, que estava marcando sua vida — não só a profissional.
O motivo? Gilberto nunca perguntou ou pediu para ele tratar o tic nervoso que tinha. A cada cinco minutos de fala, olhava bruscamente para a esquerda e gaguejava por dez segundos. Por anos ouvira conselhos dos mais diversos para tratar o tic. Gilberto sempre o tratou normalmente, focado em seu desenvolvimento profissional. Na verdade, naturalmente, nunca reparou em tic nenhum.

