O Pai de Narciso
O ambiente de trabalho nunca é suficiente para algumas pessoas que conheci. Esse era o caso de Narciso. Ele era um cara legal, boa formação acadêmica, acabara de defender a tese do mestrado. Na época, morava com os pais, o que me chamava atenção, pois estava nos seus 30 e poucos. Encontrava poucas explicações, talvez o custo de um imóvel ou a dificuldade de manter uma casa.
Por falar em custo, Narciso sempre deixava claro que trabalhava quase que por hobby, pois seu pai tinha até uma empresa familiar para administrar os bens. Numa daquelas sessões de desabafo do almoço, alguém fez o eterno comentário de que, se não fossem os boletos, já teria jogado tudo pro alto. Narciso fez questão de deixar claro que não tinha boletos. Foi imediatamente apelidado de "sem boletos".
O pai de Narciso também, segundo ele, já tinha viajado o mundo todo. Era um colega voltar de uma viagem para o Sri Lanka e já vinha ele descrevendo como o pai conhecia o local e tinha feito meditação transcendental com um mestre iogue. Além dessas habilidades orientais, o pai de Narciso também era um ás da política, muito bem relacionado, conhecendo secretários, ministros, deputados... sempre tinha informações privilegiadas para discutir política.
Para completar o pacote, Narciso, durante o mestrado, passou um tempo em Washington em algum desses think tanks refinados, talvez o Banco Mundial, não lembro. Então, tudo que fazíamos em nosso humilde departamento era prontamente bombardeado por ele, lembrando que, quando estava nos EUA, tudo era melhor e que já tinha feito dezenas de vezes algo que só estávamos pensando em inovar. Eu sei que é comum essa coisa das pessoas dizerem que no antigo emprego tudo era perfeito e cheio de histórias bacanas. Mas, nesse caso, ele caprichava.
Sempre ficava com a pulga atrás da orelha. Se o pai era essa sumidade, rico, o emprego anterior era sensacional e ele continuava sem boletos, o que estaria fazendo Narciso por lá? Não deu tempo de descobrir. Certa feita, Narciso fez algum comentário jocoso sobre uma vice-presidente, algo como: ele poderia ter um relacionamento com ela a qualquer momento, se quisesse. Por óbvio, chegou ao ouvido dela e Narciso foi sumariamente demitido. Habilidade política nunca foi seu forte.
Não muito tempo depois encontrei Narciso chorando no vestiário da academia. Estava chateado por não ter para onde ir profissionalmente. Também mudara de casa, para uma térrea e menor, segundo ele, pois o pai estava com dificuldades de locomoção e o aluguel era mais barato. O inacreditável foi ouvir dele, pela primeira vez, o quanto gostava do emprego que tinha conosco, como o pessoal era bacana, o clima adorável e as perspectivas excelentes. Mas já era tarde demais.

