O Português
Inglês fluente impressiona. Devemos ter muito mais nativos anglo-saxônicos no Brasil do que muitos países. Meu inglês, depois de muitos anos de esforço, é um tímido avançado. E olhe lá. Mas ninguém pergunta sobre português. Com IA, a coisa facilitou — desde e-mails para qualquer idioma, passando por contratos e descrições de cargos. Tudo uma maravilha. Até portunhol disfarça.
E o português? Adílson não perdoava. Parecia formado em Letras. Talvez fosse, nunca soube. Mas ele julgava. Sua frase preferida era: “Ninguém fala português fluente!” E sempre emendava alguma crítica geopolítica. Implicava com WhatsApp e suas palavras cortadas. Áudio? Era uma declaração de guerra. Diziam que era mais fácil, e ele já dizia: “Para quem?”
Estrangeirismos? No way! Mude seu mindset com Adílson. Traduções diretas como endereçar, alinhar, performar... a crítica era dura. Ele também era muito dado à literatura. Adorava clássicos nacionais e fazia questão de citar autores como se todos tivessem lido os mesmos. Confesso que não consigo elencá-los aqui porque não conheço quase nenhum. Adílson era pura erudição — e deixava isso claro para reles mortais como eu.
Mas, dessas coisas do mundo corporativo, Adílson caiu nas garras de Marcinha. Lembra daquela da fofoca? Pois é. Ela descobriu em primeira mão que ele estava se separando. Passou por um processo de profunda tristeza — ou melhor, segundo suas próprias palavras, um processo de profunda melancolia. Até para sofrer, Adílson caprichava. Só que Marcinha achou seu perfil no Tinder e descobriu sua matrícula no crossfit. Adílson não escapou de uma crise de meia-idade. Até carro esportivo laranja comprou. Marcinha deu todos os detalhes. Não sabemos ainda dos casos amorosos, mas Marcinha está atrás.
Bom, mas nada disso me preparou para o que viria. E não foi Marcinha que me contou. Um dia, ao passar pela mesa de Adílson, me deparo com um belo exemplar capa dura de Como fazer amigos e influenciar pessoas. Um livro mundano e, como ele mesmo gostava de menosprezar, “literatura de aeroporto”. Bom, realmente Marcinha tinha razão: ele estava mudado. Mas nem tanto. O livro era em português.

