Pão de queijo
Não confio em quem não gosta de Coffee break. Poucas coisas são unanimidade no mundo corporativo. Chego a pensar que não gostar dele pode indicar um desvio de caráter.
O que mais me chama atenção, para além da popularidade, é o senso de democracia e igualdade de um coffee break. Quando chega o pão de queijo quentinho, pode ser o CEO ou o estagiário, todos disfarçadamente atacam.
É como lembrar a infância, quando liberados pelo parabéns, o ataque aos docinhos começava. Ataque aos docinhos e ataque ao pão de queijo do coffee break são da mesma categoria. O que é um dos raros momentos de igualdade na pirâmide corporativa.
Mas tem uma modalidade de coffee break que poderia chamar de coffee break com pressa, onde não há o break. É aquele que durante uma reunião fica disponível para que os participantes levantem e se sirvam.
Não existe propriamente um ataque quando chega o pão de queijo. As pessoas se levantam, e tipicamente se organizam automaticamente para não gerar aglomeração e a coisa flui.
Porém tem vezes que a coisa não flui e perigos escondidos se apresentam. Estava eu numa reunião, vestido da minha melhor beca e cabelos penteados. Era daquela que você veste aquela máscara de sério e encara as formalidades com bravura.
Pois bem, chegou a minha vez de levantar, percebi a deixa. Educadamente mandei ver uns pães de queijo, peguei um café e levei um bolinho pro meu lugar. Mantendo a pose, mordi o bolinho, que estava bem seco.
Engasguei.
Quis disfarçar. Não queria emitir nenhum som, mas estava sem respirar. O bolinho não descia, e uma vontade louca de tossir me tomou.
Lágrimas nos olhos.
Mas decidi morrer com dignidade, sem perder a pose. Morreria roxo e calado, ninguém perceberia.
Foi quando Deus agiu, dei de louco, e tomei a água do colega ao lado. Ele provavelmente achou bem estranho, mas não poderia me confrontar pela água sem perder a pose.
A vontade de tossir sumiu, enxuguei as lágrimas e larguei o bolinho assassino.
Ficou a lição pra Vida. Nunca mais arrisco levar nada pra mesa num Coffee break apressado. Se for pra morrer afogado, que seja afastado e em pé.
Afinal num ambiente democrático, onde a igualdade imposta pelo pão de queijo impera, não há espaço para perder a compostura.

