Pets e Afins
Mudança é o que Ronaldo mais entendia. Desde seus primórdios na vida corporativa, assistiu a várias. Tinha orgulho de dizer que começou no departamento pessoal e assistiu à transformação em Recursos Humanos. Sentia um orgulho ímpar por ter sido parte das grandes revoluções do campo.
Palestrante frequente em eventos e professor convidado de MBAs, Ronaldo era figura carimbada no mundo de gestão de pessoas. Não fez um TED Talk por excesso de zelo e alguma timidez. Mas mesmo na trajetória de Ronaldo encontramos percalços.
Anos atrás ele resolveu um dilema que daria um nobel da paz. O compliance encasquetou com o Dia das Mães. Diziam que era excludente. Alguns desavisados cancelaram a lembrancinha. Fogo no parquinho: as mães se revoltaram. Ronaldo entrou em ação e tirou de letra com o Dia da Família. Conseguiu manter a lembrancinha das Mães e ainda colocou no calendário uma data inclusiva.
De quebra, essa solução também agradou aos pais, que tiveram seu dia mantido. Na celebração de final de ano: na fábrica podia levar cônjuge, no escritório não. Ronaldo entra em campo, turbina a celebração da sede e mantém o cônjuge nas plantas. Um acionista novo implicou com o carnaval, que não é feriado e as pessoas folgam. Lá vai Ronaldo negociar microcompensações ao longo do ano, e feriado garantido. Tirar o carnaval do pessoal e o acionista novo conheceria a fúria nacional.
Porém, todo guerreiro também cansa. Os pais queriam levar os filhos para visitar os escritórios. Tudo certo, até que um pessoal lembrou ser pai de pet. Porém o departamento de saúde e segurança não permitiu pets nos escritórios. Quase teve paralisação da geração mais nova. Foi um quebra-pau nas redes sociais. Encontrei o Ronaldo abatido depois dessa. Disse que iria fazer um "job rotation". Quando perguntei para onde, respondeu um pouco desanimado:
– Vou para o comitê de auditoria e contabilidade.

