Também é Difícil Ser Pai
Nasceram os gêmeos e, depois do parto humanizado – uma ideia bastante interessante para pais de primeira viagem, que não vou discutir aqui – lá vamos nós ao recursos humanos perguntar sobre a licença. Deveria ter feito isso antes, mas não sabia que gêmeos têm pressa de nascer.
– Quantos dias tenho para ficar com meus filhos?
– Cinco.
– Mas eles são dois! Não deveria ser o dobro?
– Não.
Uma negativa seca como aquela alma que me respondeu. Pelo menos tinha a Betinha, minha parceira de RH que se importava com a causa, mas pouco podia fazer frente à legislação e à política corporativa da época. Emendei férias e fomos no melhor modelo "vamo que vamo". Totalizaram uns trinta e tantos dias, que nem vi passar e que deveriam ser muito mais. Muito mais mesmo.
Minha esposa não pôde amamentar e, desde cedo, revezávamos na mamadeira da madrugada. Preciso dizer que, no outro dia, eu era só o pó? Quem esteve lá sabe. Só a Betinha me ouvia na empresa. Eu me escondia em salas vazias para dormir e ela segurava as pontas.
Deus me livre entrar na polêmica sobre o papel da mãe na criação ou de como é complicado para a mulher. Quem sou eu nessa história? Chorava quieto no meu canto naquele primeiro ano. Dividia com Betinha a dor da cólica, não só a do bebê, mas a minha também, de ver aquelas criaturinhas chorarem e me sentir impotente.
No meio disso tudo, tinha que manter minha pose de macho alfa corporativo. Promoções, bônus e até mesmo a permanência no emprego dependiam dessa imagem triunfadora de gestor e pai. Exagero? Talvez hoje. Naqueles anos, só o ombro de Betinha salvava.
Depois das mamadeiras e cólicas, a escolinha e os resfriados. Se já sou meio hipocondríaco, qualquer 37.5 de febre já me deixava desesperado, querendo um pronto-socorro. E lá ia Betinha, já nessa época com status de anjo, novamente me acobertar.
Com o passar do tempo, fui promovido? Fui. Valeu a pena? Não sei. Aqueles primeiros anos poderiam ter sido mais fáceis. Nove anos se passaram, recebi meu cartão virtual de Dia dos Pais da firma e os cartãozinhos que eles fazem na escola – agora com letra bonita e menos garranchos. Não preciso mais fingir que o cartão é bacana. Tem até uma mensagem com um “eu te amo” que tirou uma lágrima. Ok, valeu muito a pena.

