Um Cara Legal
Encontrar amizades verdadeiras nos ambientes organizacionais é um desafio. Muitos dizem que sequer é necessário. Outros, que somos pessoas e que é impossível separar o profissional do pessoal. Altair era destes. Gerente de uma divisão, adorava um almoço de sexta-feira com a equipe e aquela conversa longa do café. Dizem que até emprestava dinheiro sem cobrar, mas acho que era maldade do pessoal.
Já a Agatha, par dele, era outro caso. Profissional competente, trilhou seu caminho até a gerência da divisão com muito esforço e profissionalismo. Fazia uma gestão que poderíamos classificar como técnica. Sabia-se que era casada, nada mais. Sem muitos sorrisos, o pessoal estranhava a distância dos pormenores da vida alheia. E o maior pecado capital: o bom-dia que ela teimava em ignorar.
Como o esperado, os corredores corporativos puniam. O apelido mais carinhoso para Agatha era “megera”. Isso parecia não incomodar, os resultados eram entregues. Altair era louvado, gabaritava na nota da pesquisa de clima anual. Todos chamavam sua área de referência. Algumas pessoas comentavam que esse era o único indicador positivo da área dele. Achava isso pura maldade...
Semestres e mais semestres se passaram — afinal, era daquelas empresas que parecem alheias à passagem do tempo — e a percepção de que Altair era o chefe perfeito e Agatha, a tirana, se aprofundou. Dizem que, em uma reunião de final de ano, Agatha chorou. Não estava lá e não acredito. Mas Altair foi parar no compliance, isso eu sei. Uma funcionária, mal-intencionada ao que parece, entendeu mal um convite qualquer e o acusou de assédio. Caso prontamente abafado.
Mas, ainda que o cenário fosse de permanência, o tempo cobra. O diretor da área anunciou a aposentadoria e que promoveria um dos gerentes de divisão. O clima na empresa era a certeza de que Altair seria o substituto, pois até o diretor era amigo pessoal dele. Pois, para surpresa geral, o presidente da empresa exigiu a promoção de Agatha. Disse que eram novos tempos, precisava de alguém que entregasse o que precisasse ser feito, sem hesitar. Ao assumir, Agatha chamou toda a equipe e chorou ao relembrar a trajetória dela e de Altair, lembrou da paciência dele ao ensinar tudo que ela sabia sobre o negócio. Agradeceu o quanto ele era importante na vida dela, na equipe, e como admirava o ser humano que ele era. Logo após a reunião ampliada, o chamou para um particular e mandou Altair embora.

